Após mais de 15 anos na indústria de tecnologia, liderando equipes em startups e scaleups, passei por todos os tipos de desafios: técnicos, humanos, estratégicos e pessoais. Hoje olho para trás e vejo não só acertos, mas também uma longa lista de erros. Erros que me moldaram, me moldaram e me ensinaram mais do que qualquer curso, mentoria ou livro.
Quero compartilhar alguns desses aprendizados na esperança de que possam ajudá-lo, esteja você iniciando sua trajetória como líder técnico ou em fase de evolução em sua carreira. Às vezes a experiência dói. Mas dói menos quando é compartilhado.
1. Pare de fazer networking
Um dos maiores erros – e talvez menos óbvios – foi abandonar o hábito de construir e nutrir minha rede profissional.
Quando comecei a assumir cargos de liderança, principalmente como Gerente de Engenharia e depois CTO, foquei tanto nos problemas internos das equipes que negligenciei os externos. Parei de participar de encontros, ausentei-me de conferências do setor e suspendi completamente as atividades de mentoria e coaching.
A desculpa era sempre a mesma: não tenho tempo.
Mas há um aspecto ainda mais complexo: subestimei quanto custa reconstruir uma rede quando se muda de país. Vivi essa experiência primeiro em Portugal e depois em Espanha, onde vivo há cinco anos. Chegar a um novo país, por maior afinidade cultural que exista, significa começar quase do zero. Seus contatos locais não estão lá. Sua reputação não precede você. Seu nome não abre portas.
Além disso, o ecossistema é diferente. As referências mudam. A dinâmica, os canais e até a linguagem com que se fala de tecnologia e negócios variam. Achei que minha experiência anterior seria suficiente para uma integração fácil. Eu cometi um erro.
Reconstruir minha rede exigiu humildade, tempo e esforço ativo: participar de eventos, pedir apresentações, participar de comunidades locais, oferecer orientação sem esperar nada em troca. Foi lento, mas profundamente enriquecedor e ainda estou trabalhando nisso.
Hoje entendo que networking não é uma atividade “extra”. É uma responsabilidade profissional contínua, especialmente em funções de liderança onde a ligação ao ecossistema pode definir o acesso a talentos, parceiros, oportunidades e novas ideias.
2. Foco exclusivamente na gestão de pessoas
Como muitos líderes técnicos, passei pela transição de prático para gestor de pessoas. No início mergulhei completamente nesta nova dimensão: processos, coaching, OKRs, planejamento estratégico, desenvolvimento de carreira, cultura organizacional.
E sim, fiz isso com paixão. Gosto de trabalhar com pessoas. Gosto de ver alguém que orientei crescer. Mas cometi um erro sutil: me afastei demais do lado técnico. Deixei de fazer revisões de código, de participar de decisões arquitetônicas e de ter contato com desafios tecnológicos reais.
Isso criou uma desconexão. Não só para mim, que comecei a sentir que estava a perder parte daquilo que me motivava, mas também para as equipas, que esperavam que eu fosse uma referência técnica e não apenas um treinador.
Há pouco mais de 4 anos, juntei-me a startups em estágio inicial com foco na modernização e escalabilidade de seus serviços tecnológicos. Procurei ambientes que me permitissem liderar pessoas, mas ao mesmo tempo programar e contribuir com equipes. Na verdade, na Venturest voltei aos fundamentos profundos, praticamente construindo sozinho toda a plataforma tecnológica, do back-end ao front-end, adotando serverless, AWS, integração e implantação contínuas, clusters ECS e uma tonelada de outras ferramentas.
Encontrei equilíbrio reservando um tempo semanal para atividades técnicas. Não para microgerenciar, mas para ficar próximo: entender os desafios, revisar decisões críticas, fazer parte do debate técnico. A liderança técnica não exige que você seja o melhor programador, mas exige que você mantenha credibilidade e compreensão da pilha, do produto e do negócio.
3. Subestimar a complexidade dos países em mudança
Mudar parece glamoroso: novas oportunidades, novos desafios, crescimento pessoal. Mas a realidade é mais dura. A mudança de países, mesmo dentro da Europa, envolve um profundo processo de adaptação.
Quando me mudei para Espanha, não estava apenas a mudar de casa ou de emprego. Eu estava reformulando minha rede social, minhas rotinas, meu ambiente emocional. Mesmo os pequenos detalhes – como abrir uma conta bancária, compreender os sistemas de saúde ou saber onde fazer compras – tornaram-se obstáculos diários.
Somado a isso está o peso cultural. Embora tenhamos uma língua muito parecida com o português, as normas sociais e de trabalho são diferentes. A forma de liderar, de dar feedback, de se relacionar profissionalmente varia. E nem sempre é fácil navegar por essas diferenças sem se sentir isolado ou frustrado.
Hoje, quando alguém me diz que está pensando em se mudar para uma oferta de emprego, meu conselho é claro: prepare-se emocional e profissionalmente. Não é apenas uma mudança de cenário. É uma mudança de identidade.
4. Aprenda espanhol e pare de falar inglês
Este erro pode parecer trivial, mas teve consequências inesperadas. Quando cheguei à Espanha, decidi me comprometer com o idioma local. Fazia sentido: eu queria integrar, liderar melhor, entender as nuances culturais.
O problema foi que nesse processo ele deixou o inglês de lado. Eu inadvertidamente me isolei de muitas conversas globais, oportunidades de colaboração internacional e acesso a comunidades técnicas que se comunicam principalmente em inglês.
Além disso, aprender um novo idioma, sem ter facilidade natural para isso, exigia muita energia. Energia que, durante meses, não consegui dedicar ao meu desenvolvimento técnico ou de liderança.
Hoje tenho orgulho de falar espanhol fluentemente. Mas também entendi que, em tecnologia, o inglês não é opcional. Não se trata de abrir mão de uma língua ou de outra, mas sim de construir a capacidade de operar nos dois mundos. Essa dualidade faz parte do trabalho moderno.
5. Não compartilhar meus aprendizados por meio de conteúdo
Durante anos limitei-me ao círculo fechado da minha empresa. Achei que compartilhar o aprendizado publicamente era para “gurus” ou influenciadores. Que não tive tempo, que não era minha praia, que outros já fizeram melhor.
Esse silêncio me custou caro. Perdi visibilidade, sim, mas mais importante: perdi oportunidades de reflexão. Porque ao escrever, ao ensinar, ao falar em público, você organiza suas ideias, aprofunda o que aprendeu e gera conversas valiosas.
Desde que comecei a compartilhar mais – por meio de artigos como este, palestras, mentorias abertas – minha carreira se tornou mais rica. Conectei-me com colegas de outros setores, recebi feedback inesperado e até surgiram oportunidades de trabalho e colaboração.
Não é necessário ter todas as respostas. Basta ter algo genuíno para contar.
6. Ignore que o ambiente de inicialização é muito volátil
Trabalhar em startups é emocionante. Os ciclos são rápidos, o impacto é tangível, a curva de aprendizagem é brutal. Mas também é um terreno instável.
Por muito tempo presumi que com talento e esforço suficientes poderíamos “domar” essa instabilidade. Que uma vez lançado o produto, ou validado o mercado, a calma viria. Isso nunca acontece.
A volatilidade faz parte do jogo: mudanças de estratégia, cortes, pivôs, aquisições, rotação de equipe. Quando nos apegamos à ilusão de estabilidade, o golpe é mais forte.
Hoje lidero com essa consciência. Desenhamos estruturas mais resilientes, processos mais adaptáveis e, acima de tudo, cultivamos uma cultura que abraça a mudança como parte da jornada.
7. Adiar demais meu sonho de empreender
Durante anos ajudei outras pessoas a construir seus sonhos. Liderei equipes que lançaram produtos inovadores, escalaram plataformas e superaram crises. Mas adiei minha própria ambição empreendedora.
Sempre houve um motivo: falta de oportunidade, medo do risco, conforto. Disse a mim mesmo que já estava “intraempreendedor” da minha função, mas sabia que não era a mesma coisa.
Quando finalmente entrei no sonho da VENTUREST, entendi tudo o que estava me impedindo. Empreender não é apenas lançar uma empresa. É um ato de autodefinição. Isto é: “é isso que quero construir no mundo e é assim que quero fazer”.
Lembro-me de um 1:1 que tive com o Bruno Ghisi, CTO da RD Station, em 2018, onde compartilhei meu objetivo de formar-se previamente para, no futuro, me tornar um empreendedor. Ghisi me disse algo que ficou comigo: no final, você nunca estará completamente preparado para isso. Não há nenhuma linha que indique “a partir de agora você está pronto para empreender”. Empreendedorismo é lidar com ambiguidade, incerteza e ansiedade. É um caminho de aprendizagem e formação contínua.
Sinceramente não é uma tarefa fácil, todo um outro universo de aprendizados e sentimentos se abriu para mim, lidar com parceiros, ter pessoas sob seus cuidados, tudo isso é outro nível de complexidade e responsabilidade.
Eu gostaria de ter começado mais cedo. Mas também sei que cada passo anterior me preparou para fazê-lo com mais clareza e maturidade.
8. Negligenciar minha saúde e absorver todos os problemas
Este é, talvez, o erro mais humano. No meu desejo de ser um bom líder, tornei-me o “recipiente emocional” para todos os problemas da equipe. Ele ouviu, resolveu, mediou... e absorveu.
Durante anos carreguei o estresse dos outros como se fosse meu. Parei de fazer exercícios, ignorei sinais de cansaço, me desconectei de hábitos que me faziam bem.
Até que meu corpo me afetou. E entendi que autocuidado não é egoísmo, é responsabilidade. Ainda estou em processo de aprendizado, estou priorizando o descanso, estabelecendo limites claros, delegando sem culpa. E, paradoxalmente, isso está me tornando um líder melhor.
Reflexão final
Ser CTO ou Gerente de Engenharia não significa apenas dominar a tecnologia. Está liderando na incerteza, adaptando-se a novos contextos e aprendendo diariamente. Muitos desses erros não eram evidentes na época. Somente com distância – e humildade – pude ver seu impacto.
Compartilho isso porque acredito que falar sobre os erros nos humaniza, nos aproxima e nos faz crescer. E porque, talvez, quem está iniciando esta jornada possa evitar alguns tropeços se ler estas palavras a tempo.



